O Salsinha
Desde que me mudei para este Vale das Sombras senti-me incomodada com a pertinácia de "voyeur" de um dos vizinhos das traseiras.
Perseguia-me, até quando ía fazer compras, ...
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Acontece que o nosso vizinho é casado. Supunha-o viúvo, ou coisa que o valha - punha-se de tronco nu, como se me quisesse transmitir alguma coisa: a reacção possível era, de facto, óbvia: imaginava-o a guardar um rebanho, de garrafão a reboque!
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...Mudou-se para lá o filho, o Salsinha.
Ora o Salsinha quase nunca se deixa ver.
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Passa as noites ao computador, vai espreitando pelas janelas para ver se vê luminosidade em minha casa, interfere no meu computador, e de manhã... apagam-se todas as luzes: as da sala dele, e as da rua...
Raramente se vê roupa lavada a secar...
Sai muito pouco, e, quando calha vê-lo, (o que é duma esporadicidade inacreditável), é macilento e translúcido.
Vai sempre de fugida, e, decerto, para encontros fortuitos.
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Vidas complicadas as desta gente?!...
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Mas estão na moda, (com as vicissitudes que os conhecimentos virtuais proporcionam), variações escabrosas - uma forma nova de incorrer em devaneios, sem se exporem à maledicência;......
A inveja, a cobardia, o despeito, a injúria são desportos favoritos e a "côr local" por cá: um "ex-libris" quase com "marca de água" - mal se vêem, mas têm um peso devastador.
In Contos em Noites de Lua Cheia - Brumas Sobre o Vale
ISBN: 978-989-20-3163-7
Junho 2012
