Friday, May 4, 2012

Inquietações e Desassossegos

Há já uns dias que memórias da minha infância me deixam prostrada, sonhando acordada.
Não aguentei a "marinada" e tive que vir descarregar, no meu "diário electrónico" toda esta disforia.


Relembrar o cinema, os filmes, as imagens, que encheram os meus olhos de sonhos, o meu cérebro de utopias, e o meu coração de recordações coloridas, que jamais se repetiram, ou virão a repetir-se, deixa-me inquieta, vibrante, lamentando nunca me ter sido possível fazer o mesmo percurso que os meus pais me possibilitaram guardar com ternura, fascínio, e um imenso amor à vida e à família. 


De cada vez que decidiam sair, quer para o cinema, quer para o teatro... Que lindo era tudo?!... Deverão ter começado aí as noites curtas, as minhas madrugadas prematuras...
Recordo-me deitada na cama deles, de perna cruzada sobre um dos joelhos, vendo-os prepararem-se - a minha mãe, que, voltando-se de costas para o meu pai, lhe pedia que puxasse o "zipper" do vestido, (longo, sempre até aos pés), ou que lhe colocasse o colar; o meu pai, no outro espelho, ou por detrás dela, dando o nó na gravata, mas pretendendo que ela lhe desse o jeitinho particular, e muito pessoal, quer à gravata, ou ao laço, quer ao lenço de bolso do casaco. Depois... um cheirinho de perfume, um brinco apertado, um "bâton", um sinal, um caracol... Uma estola, um casaco...e a "pochette", pequenina...
Um prelúdio de sonho, de fantasia, que prosseguiria quando regressassem a casa.
Relembro o espanto de me verem sentada na cama, mal entravam em casa. Mal cabia de expectativa pelas narrações da minha mãe - o meu pai servia de "ponto". Muitas vezes, já só pela madrugada dentro adormecíamos.
A minha mãe teve sempre um jeito muito seu de contar "estórias". As imagens que desnovelava, recriaram enredos bem mais perenes e vivos que os que vi, mais tarde, nos filmes que relatou. Suplantavam sempre, sobrepunham-se sempre às sequências projectadas nos "écrans" - assim foi com Cleópatra, Ben-Hur, A Ponte sobre o Rio Kwai, e tantos, tantos outros. Tenho-os, inclusive, gravados em vídeo - revê-los é, mais que o que a tela vai passando, o desfiar de imagens que ela coloriu quando mos contava.
Se eram longos, ficavam para depois da escola, no outro dia. Chegava a casa, fazia os deveres da escola, e plantava-me ao pé dela para a ouvir. 
Momentos destes, inefáveis, doces, quem dera aos miúdos de hoje?!...


Quando comecei a frequentar as "matinées", aos Domingos, com eles e o meu irmão, era um delírio.
A minha mãe desistiu de ir connosco - ríamos tanto, as pessoas mandando-nos calar constantemente, que ela preferia ir com o meu pai à noite. E ele não se importava nada de ver de novo, em diferido, o mesmo filme.
As tardes de Sábado, ou de Domingo, começaram por ser com o meu pai - uma "casa cheia"!?... Não falhávamos Mário Moreno, ("Cantinflas"), ou Louis de Funés. Para além de rirmos com gosto, havia, a contra-gosto, o meu irmão, pequenito, a pedir sempre"Mana, lê alto. Também quero rir: não percebo. As letras fogem..." Era um desassossego completo, e uma alegria para o pai babado que tive.
Passámos a ir sozinhos os dois, mais tarde. Era uma festa - relembro Marisol, Joselito, também... Um lanche em família, depois. Um passeio pelo Jardim Vasco da Gama. Às vezes fotografias, e longos passeios a pé, para arejar e "ver as montras".


Um dos cinemas mais frequentados situava-se na Rua Araújo, a "Rua do Pecado", em Lourenço Marques.
De dia, era uma azáfama, de trabalhadores das alfândegas, dos escritórios, das embaixadas - onde solicitei e recolhi muita informação para as disciplinas de História e de Geografia; como eram em Inglês, ajudaram-me a desenvolver esta língua estrangeira, tornando-me numa das melhores alunas da disciplina. À noite, - (que também por lá passávamos de carro, a caminho do cais, por onde o meu pai adorava andar a pé, para ver o bulício dos trabalhos de carga e de descarga, os guindastres em manobras, um vai-vem de operadores de todo o género - sabia bem a fresquidão da brisa marinha, principalmente em noites quentes, de calor intenso), - era esquisito: pouca gente, muitas piscadelas de "néon", gente de côr envolta em roupagens estranhas, homens de comportamento duvidoso... Enfim: o "pecado" estava na rua e batia à porta dos bares, e das "strip-teasers"...


Nunca interroguei os meus pais sobre esta alteração, na mesma rua, entre o dia e a noite - há coisas que são óbvias, que, intrinsecamente, entendemos - aceitamos, ou rejeitamos: era o dia, dia; era a noite, noite.


05/05/2012, (03h:20')