Sunday, May 13, 2012

Recordações de uma outra Lisboa (excerto)

......
Há recordações que guardo com carinho pelas pessoas que a elas estão ligadas.
Contudo, há mágoa pelo desrespeito, a insensatez e a injustiça que a pseudo-liberdade, cega, sórdida, execrável, me fez sentir.

Vivi, dos meus dezoito aos vinte e dois anos, em dois lares, situados sensivelmente na mesma zona, embora com características completamente diferentes. Creio que já nenhum deles hoje funciona.
O primeiro, o Lar Joana d'Arc, na Avenida da República; o segundo, na Praça José Fontana.

Há personagens que jamais se apagam das nossas memórias. Como há factos que nos fazem, por um lado, acreditar que ainda há gente com maiúscula, e, por outro, lamentavelmente, que pululam por aí demasiados mentecaptos, que, à revelia, sabe-se lá do quê, se outorgam o direito de destruir o que de bom a vida nos proporciona.

Havia, e desapareceu, infelizmente, uma figura característica de Lisboa - o guarda-nocturno.

Quando vivi no Lar Joana d'Arc, quantas vezes o guarda-nocturno, abrindo-me a porta de entrada do prédio, me perguntava, sempre: "Quer que a acompanhe até à porta, menina?" O edifício era velho, o elevador avariava-se com frequência, e ele sabia-o. Quantas vezes fui cantarolando, escadas acima, para afastar o medo?! Situações houve em que ele teve que correr com mendigos, que se acolhiam nos patamares, ou nas escadas. Mas sabia que, embora não indo comigo, ... ficava à espera, lá em baixo, de porta aberta, até me ouvir entrar no lar.
O Lar da Praça José Fontana ficava no primeiro andar de um prédio mais recente, mas o procedimento do guarda-nocturno da zona era o mesmo. Esperava que entrasse, e só depois prosseguia o giro.

É com este último que, após o 25 de Abril, tenho das mais angustiantes e revoltantes experiências, provocadas por procedimentos de um pseudo-defensor da liberdade.
Uma noite, uma das laristas, que ía sair com o namorado, convidou-me e a mais duas outras raparigas, para irmos com eles.
O guarda-nocturno ía na sua plácida e rotineira volta.
Já íamos de largada, quando o Víctor, de repente, pára o carro a meio da estrada, sai, de rompante, dirige-se ao homem e diz-lhe: "Agora com o 25 de Abril, finalmente posso dizer-lhe o que há muito lhe queria dizer! Seu grandecíssimo filho da puta!"
Não me contive: saí do carro.

O Víctor perguntou-me: "Onde vais?"
- "Desculpa, mas acho que foste, para além de muito mal-educado, extremamente estúpido. Vou voltar para casa".
Espanto dos espantos, fui apodada, pela primeira vez na minha vida, de - "És uma fascista!"

.....

A minha homenagem é para estes seres, que, para além da provecta idade, [(quase) todos já eram de idade avançada - pelo menos para mim, que era nova...], que me merecia o maior respeito, tinham sempre para mim, (e creio que para toda a gente)... uma palavra amigaum "boa noite", que nos guiava até dentro de casa.

Desapareceram, infelizmente.

Transportavam consigo uma argola enorme, com chaves, muitas, e nunca se enganavam na fechadura certa. Parecia que levavam consigo as chaves do(s) céu(s) e do(s) inferno(s) - e eles sabiam onde estava(m) u(m)/(uns) e outro(s)...

......

...eram uma nota de vida na "côr-local" de Lisboa nocturna.

07/03/2012

______________________________
- texto elaborado, por repto lançado no início do mês de Março, para recordar marcas que "os filhos da madrugada" deixaram para nos entretermos: elas são os deboches, as incúrias, as mal-querenças, as más-educações, as vilanias, o desrespeito pelo próximo, com que temos que lidar todos os dias
- nenhum dos Lares em questão existe hoje; o edifício, onde se situava o da Avenida da República, embora mantendo a fachada, foi reconstruído em traça moderna; o da Praça José Fontana passou a residência particular haverá mais de vinte anos, mas o edifício está intacto.
13/05/2012, (10h:15')