Saturday, March 3, 2012

Filtros e Imagens

Tenho tido, com muito mais frequência, actualmente, visualizações, que, há uns tempos, pela primeira vez há onze anos atrás, pouco mais ou menos, e mais recentemente, fará um mês, me surpreenderam com estranheza.
Quem percebe, minimamente, de fotografia, sabe que são utilizados filtros para compor, distorcer, melhorar, fazer sobressair, "construir" imagens, que a objectiva capta. 
Não são a estas filtragens que me refiro.
Sem distorções, com uma nitidez impressionante, as sequências que tenho captado são rudes, feias, bisonhas - contrariamente às que guardei de Chipre, por aqui tem acontecido uma panóplia de rostos emporcalhados, de gente com corpo tresandando a sarro, transportando lixo por dentro...
Não consigo exprimir, claramente, esta clara, abjecta transmutação orgânica.
Uma aura de promiscuidade agravada, uma forte e impressiva rejeição, atingindo as raias do nojo, da repelência, envolvem-me. Nem se tratará de "uma câmara de horrores" - isso implicaria difusões e distorções. São imagens vivas, "en passant", abjectas.
Gente feia, por dentro e por fora. Pensar que poderei ser tocada, mesmo de raspão, faz-me desejar que todas as fímbrias do meu corpo se encolham, se retraiam e me furtem ao toque, seja de que modo fôr - não posso evitar esta sensação.
Pensar em tocar-lhes, é como se me transfigurasse, tentando penetrar, por momentos, nesse mundo. Lembro-me sempre dos leprosos, em Moçambique, (em Nampula, para ser mais clara), em quem tocava, para desespero da minha mãe - mas esses tinham o cuidado, (por imposição do governo, ou por seguimento das ideias emanadas da Bíblia, ou porque assim era determinado pelas missões), de se fazerem acompanhar de sinetas, ou campainhas para salvaguardarem os que não padeciam da doença.
Por aqui, impoem-se, infiltram-se, emporcalham-nos, sem respeito nenhum pelo próximo. E é esta atitude, esta postura que denigre, mais ainda, o seu "modus vivendi" e adensa a rejeição que me tolda os sentidos, me provoca náusea, angústia, sofrimento e dor. De outro modo não se explicariam os sucessivos males-estar, doenças, que me têm prostrado desde que por aqui vou vegetando.
Não existem refúgios onde possa estar em paz, longe de tudo isto: perseguem-me, antecipam-se às minhas pressupostas intenções de buscar lugares de reflexão, de meditação, de encontro com a harmonia. Um assédio, a todos os títulos, irreverente, sórdido, primário e de impulsos animalescos. Aliás, nem mesmo os animais, sentindo-se sujos, se aproximam dos donos, e/ou evitam o contacto com as pessoas.
Com esta gente dá-se o contrário. Quando se apercebem, gastam água, (calhando das fontes e nascentes), e, julgando-se "lavados", vestem-se de novas roupagens, tentam a aproximação - o mal está lá, persiste, apesar de tudo - mas eles não têm consciência disso. São acríticos, (ou criticam o que não devem, sem se aperceberem que padecem dos mesmos males), irresponsáveis, incivilizados: uma geral inconsciencialização cresce, avoluma-se numa massificação tenebrosa, numa mole imensa de esterco humano.
Lamento, às vezes, a minha incapacidade de lidar com estas miudezas. Não sei ser de outro modo.

04/03/2012, (07h:08')