Monday, January 23, 2012

Manifesto-Resposta a Fernando Gil # AEMO, de 22de Junho de 2004

Boa noite.
De facto, é com imensa pena que ainda vejo a ignorância a imperar - se partirmos do princípio que todos os emigrados têm direito aos seus haveres, porque não quem viveu, labutou e sofreu pelos países onde se integrou até que Deus o permitiu, ou as condições adversas, (em que a própria vida se via ameaçada, quer pelas guerrilhas, quer pelas perseguições absolutamente inacreditáveis), obrigaram a grande maioria dos portugueses a sair com a roupa do corpo? Salvaram-se os que, fazendo jus à imensa capacidade de trabalho e dedicação, foram convidados a ficar a contratos a prazo, com a intenção de poderem trazer mais alguns haveres, (porque assim estava consignado nos contratos...) Não obstante, é sabido que se pode dar à "justiça" e/ou "justeza", as voltas que o poder quiser - sabem-no alguns, (muito poucos), que se viram em palpos de aranha para verem satisfeitas as cláusulas dos contratos...
Depois, e por incrível que pareça, (e, quem não sabe, poderá ficar ciente, que) a própria embaixada de Portugal, durante o período de transição, nada fez de concreto em prol dos portugueses que lá se encontravam; muito antes pelo contrário: nem apoio, nem colaboração, nem quaisquer atitudes ou actos que valorizassem o trabalho dos que ainda lá se mantinham, contra tudo e contra todos - entregou-os aos bichos, fazendo absoluto caso omisso de todas as petições que entravam na embaixada - quem (não) se recorda do Dr Martins da Cruz?
Depois, "árvore das patacas" terá sido após a independência, com os cooperantes - grandes, e rápidos, "pés de meia" se fizeram, e continuam a fazer?!...
O IARN foi uma grande ajuda para alguns, uma "boda aos pobres" para outros, uma "dádiva dos céus" para outros tantos; mas, como todas as ajudas falaciosas, só serviu minorias - milhares de pessoas, nem às magras ajudas à chegada a Lisboa, no aeroporto, tiveram direito. Houve quem arranjasse meios de nunca reverterem para os cofres do estado os empréstimos cedidos? "Ladrão que rouba a ladrão..."
Meus amigos, é vergonhoso que o epíteto, que continua a denegrir, mais que quem de lá veio, os que por lá ficaram "à espera de Godot", que viram cerrarem-se os olhos às realidades de África,  taparem-se os ouvidos a todas as solicitações que de lá vinham e nos deixaram à nossa sorte, (até ao fim dos tempos de mel e fel). Não somos RETORNADOS - alguns nasceram lá; somos filhos de emigrados, como quaisquer outros, em França, Inglaterra, Alemanha, Macau, Canadá, etc.
Tem que haver uma medida e um peso, inalterável, seja lá qual fôr a região onde a mão-de-obra portuguesa se determina pela sua entrega, pelo seu empenho e pelos laços de sangue que cria.
Como mulher, como moçambicana, e, sobretudo, como patriota e filha de quem amou, até ao fim dos seus dias, o país onde os filhos nasceram, desgosta-me deparar com tanta "cegueira", passados que são cerca de trinta anos.

23/Junho/2004, (18h:42':32'')