Monday, April 23, 2012

Homenagear Zeca Afonso...

... Pois?!...
Dizem, que dizem, e fazem, que fazem...
"Tanta ignorância junta!", como ele diria...
Conhecê-lo, era amá-lo, pelo ser lindo que era, (por dentro); quiseram-no um mito: mataram-no!

Um ser humano, dos maiores que conheci! Convivi de perto, como amigo, como  letrado, como colega de  multipartidas: amou a vida, desafiou fronteiras, foi sempre um  homem carente da incompreensão dos  homens -  morreu sem que soubessem que sofria de solidão enorme, desmesurada, por querer ser um mais entre os outros...
Benditos momentos que partilhei com ele, antes do 25 de Abril, (nos anfiteatros da Faculdades de Letras), durante, (as permanências frequentes na Universidade, como colega), depois, como parceiro de cafés amargos, (que adoçava esperando a morte em Santa Marta)!
Um homem de mão-cheia, olhar sereno, uma ternura escondida, e uma eterna dádiva à vida...
Admirei-o sempre, até quando, já cansada de ouvir "Os vampiros", (cantados vezes sem conta por aqueles anfiteatros...), abandonava a Faculdade e descia a Alameda da Cidade Universitária, enquanto a polícia, de mangueiras multicores em riste, fazia incursões, e rusgas...
Para mim , Abril está despido - morreram as flores que um dia amei, definharam as almas que quis como ninguém, emudeceu a música que toquei nas escadarias daquela Faculdade que amei, como se se idolatram sonhos por conquistar.
Se calhar, por isso mesmo é "Abril, águas mil!"

23/04/212, (16h:56')

Saturday, April 7, 2012

Antítese existencial

Uma música que soa nos escaparates do "video-clip" e nos envolve de sonhos, de ilusórias fugas ao real, que nos focaliza nos espaços em que nos enquadramos.
Um nariz esborrachado na vitrine da vida; os olhos esbugalhados do espanto-certeza do encontro das minhas querenças.
Estou sempre no umbral de acesso ao meu envolvimento: sinto que nunca existe degrau, passagem, pa(ss)/(ç)o, ponte para transpôr o que está de "pose" perante os meus olhos; tão perto que não sei da minha mão para agarrar essa realidade, que é minha, que surge sempre como um aviso dos deuses.
O medo da assumpção?
É, sim, uma ignara sensação de estar sonhando de olhos abertos, como se o meu infra-ego ali estivesse gozando as minhas emoções póstumas ao confronto - e não sei de forças, de agressões à vida para agarrar todo esse mundo que é meu. Porquê, meu Deus? Que concussões terei de provocar? Ou será sofrer?
Deste-me a razão desmedida da análise. Deste-me a magia do raciocínio supra-emoções. Fizeste-me um ser humano, e esqueceste-te de me dar mais animalidade, de me ensinar a ter o que nunca tive - um irracional primitivismo!
Será, afinal, tudo isso que não sou, a verdade desta vida? A verdade de se ser um humano?

19/07/1986, (20h:15')

Wednesday, April 4, 2012

(Sem Título)

Apetecia-me escrever para tentar sair desta modorra de querer, não querer sair, sentir outro ar, sair de mim... e é sempre assim: sem dinheiro não sou capaz de sentir força anímica, "minha", preciso de um "émulo" qualquer - uma chamada, um desafio... e penso que em todas as circunstâncias idênticas sou um ser sem alma, amorfo, sem vontade suficiente para esquecer que tenho os bolsos vazios. Como eu detesto esta dependência, este não-ser-nada, se estou na "bancarrota"?! 
Não tenho saídas - sinto-me um ser desterrado, acéfalo, inconsistente...
Com dinheiro, tenho tudo, mesmo que nada faça.
Não seria capaz de imaginar-me alguma vez perdida no marasmo de canto qualquer, dependente de um qualquer ser, que me subsidiasse, me alimentasse, vestisse, calçasse, ou de quem dependesse a bica que tomo pela manhã - daria em louca!
Loucura é isto de ter as possibilidades todas, de ser perfeita e inteiramente capaz, de ter roupeiros cheios a precisarem de ser arejados e não ser capaz de fazer um simples gesto como pegar nas chaves do carro e ir por aí - notas são átomos de vida para mim; são a sensação plena de que posso, mesmo que não queira; que quero, mesmo que não deva; que devo, mesmo que a escolha seja outra - gastar, comprar e preencher vazios que se avolumam quando nada posso.
Devia, e tenho que ter dinheiro - não por amor e ganância, mas pelos prazeres e plenitude que me incute, pela grandeza, (e como é triste sabê-lo?!...), que ele me confere. Um "canudo" não é nada; dinheiro é tudo: beleza, bem-estar, leveza de espírito, segurança, certezas, transparência, fluidez, liberdade!
Que voltas mais dará a vida, que a tômbola da riqueza nunca aponta para mim?!...
Depender de alguém com "massa"? "Ná!"... Será sempre de alguém, não minha - não me serve a alternativa.
Que, ao menos, Deus me encaminhe à(s) porta(s) secreta(s), correcta(s) para ter a minha "árvore das patacas" - ainda tenho sonhos por realizar: preciso de "cheta"!!!


22/06/1999, (21h:20' - 21h:40')


- Folheando textos avulsos, encontrei um registo, que a meu ver, prenunciava todo o destempero que me assolou desde que vim para a Lourinhã;
- Hoje abri uma carta da AEDLV, em resposta a uma minha em que solicitava o pagamento de 4, (quatro), meses de 2011, que me foram surripiados - isso mesmo: surripiados! As alegações não têm qualquer razão de ser - estou de baixa por ruptura completa do meu sistema nervoso, estive a soro o ano passado por estar sub-alimentada, foi solicitado um período de carência - não posso recorrer mais - e estou em vias de perder a minha casa; a minha mãe não é, nem a AEDLV, nem a DREL, nem o MINISTÉRIO DA EDUCAÇÂO, para arcar com as responsabilidades que tenho que suportar; para além do mais, há mais vidas para viver que aturar mentecaptos e ignaros.
- Já tentei de tudo, com o currículo que tenho, e com o que sou capaz de fazer; não me mete medo fazer seja o que fôr, desde que honesto. Só me resta ir pastar vacas, pelo que vejo?!...
                                                                                                             05/04/2012, (05h:20')  

Monday, March 12, 2012

Razões de ser

À uma da manhã, (-5 minutos), saía do portão da E.S.P.A.M.O.L - acabei o P.F.A.P - é bem pior que fazer a atribulada viagem no "combóio de Chelas"!?... Nem rescaldo, nem inquietação: uma sóbria quietude apaziguadora, um diluir de tensões desenfreadas: as sombras mortas que se esvaiem já tão fora de sentido e razão de ser ou existir. Regressa a minha consciência tranquila, tão fora das ninharias que me rodearam, que me abalaram - a benção divina que desce sobre mim é o lenitivo dos meus dias normais, de novo: nem a fome, o sono e o desiquilíbrio da "desertificação" em que me encontrei durante duas semanas consegue já ser um pálido resquício: já tenho de novo música dentro de mim! Só a letra, (numa breve análise), permanece ainda insegura - vai voltar a paz, a distância do resto, e, sobretudo, a certeza de que há muitas mais razões a precisar da minha constante racionalização, imagística, dádiva: a minha razão de existir - os meus jovens!

19-20/11/1993, (sexta para Sábado)

- Quem andou envolvid(a)/(o) nestas andanças da profissionalização sabe do que estou a falar e da loucura (dos outros), que nos perturbam e desajustam, desnecessariamente. Restam muitas más recordações, noites perdidas com longos dias de trabalho, sem nunca descurar a devida atenção a tudo o que pudesse envolver aulas, clubes, sala de estudo, biblioteca, arquivo morto,(o Biotério), e tantas outras actividades em que estava envolvida - mas há sempre (a)/(o)s amig(a)/o)s da desgraça alheia - é dest(a)/(e)s que prescindimos "a todo o vapor"!
12/03/2012, (17h:58')

Thursday, March 8, 2012

Dia da Mulher

Hoje, 08 de Março, consagrou-se como o Dia Internacional da Mulher - as razões que o levaram a tornar-se famoso não serão das mais abonatórias para quem decidiu sobre a vida, (neste caso, a morte), de mulheres que se determinaram a lutar pelos seus direitos. Só de tristes e vergonhosos factos se marcam datas para nos celebrarem, e só cabeças masculinas são chamadas a tomar decisões destas...

Mas, hoje, dedico o que se segue a todos os homens que não souberam amar-me, ou não quiseram deixar-se amar, o que, por vezes, é o mais difícil, de tão elementar e fácil que é.

Dizia um amigo meu, colega dos meus anos de estudo no liceu de Nampula, professor de Matemática, que "um bom professor não tem tempo para constituir família". Não serei tão radical; mas que é um facto a considerar, é-o, sem dúvida.
Ser mulher não é só ter um corpo, um sexo, um útero: é muito mais que isso.
Uma amiga de infância dizia-me há uns anos atrás, (avó assumida!): "Tu não tens filhos, nem netinhos!..." Só faltou acrescentar: "ué?!..." A minha resposta, de acordo com as minhas experiências, foi: "Sabes? Nos tempos que correm, não sei se isso me traria algum consolo"

Subtraindo estas duas questões, antagónicas, tenho que considerar que tive muitos filhos e filhas, que me deram prazeres imensos, alegrias incomensuráveis pelas sementes que neles depositei, e pelos frutos que colhi; outros, ter-me-ão dado mais destemperanças, mais cuidados, mas esses, para mim, são "filhos de ninguém" - quem não é capaz de reconhecer o bem que se lhes deseja, o denodo com que nos empenhamos por os tornar melhores e maiores, não merece menção.

Mas pretendia eu falar dos homens:
Ainda acredito que somos mais anjos, que demónios - serei romântica, talvez.
Mas acredito que nós, mulheres, temos a capacidade imensa de remediarmos, de curarmos, de alentarmos, de amenizarmos as agressividades que os homens, considerados os "batedores" da selva, que é a vida, os desbravadores das dificuldades, os conquistadores das oportunidades casuísticas, por vezes, ou descontam em nós as más visões que têm, por temerem seguir em frente lutando, ou nos desacreditam, porque nos crêem "seres menores".
Já não referirei as violências domésticas, que recaem sobre as mulheres e são justificadas pelos "maus agouros" que elas desejam aos homens - alegam eles?!... Como o adepto do Benfica que surrava a mulher sempre que o clube perdia: ela é que tinha culpa. Este é um caso verídico, embora incrível, de tão burlesco.

Ser mulher - e gostei sempre de o ser, pela consciência, que a família me transmitiu, pela "endurance" que a vida me obrigou a adquirir, pela frontalidade, que me ensinou meu pai, pela firmeza das minhas convicções, que aprendi a defender - é muito mais que tudo isto:
É ter alma, e ser gente!
É ter corpo, e continuar a sonhar!
É ter vísceras, para dizer a verdade!
É ter sexo, para saber usar saias!
É ter certezas, e lutar por elas!
É ter luz por dentro, e deixá-la fluir nas pontas dos dedos!
É ter ternuras, e expressá-las em actos!
É ter raivas, e saber deitá-las fora!
É ter fé, e acreditar que a vida ainda vale a pena!
É ter dores, e não esquecer que a vida não se compadece!
É ter lágrimas, para chorar em segredo!
É ter um coração, que um dia vai parar de bater!
Mas, sobretudo, é ser mulher inteira, nunca pela metade, seja do que fôr!

08/03/2012, (15h:28')


  
  

Saturday, March 3, 2012

Filtros e Imagens

Tenho tido, com muito mais frequência, actualmente, visualizações, que, há uns tempos, pela primeira vez há onze anos atrás, pouco mais ou menos, e mais recentemente, fará um mês, me surpreenderam com estranheza.
Quem percebe, minimamente, de fotografia, sabe que são utilizados filtros para compor, distorcer, melhorar, fazer sobressair, "construir" imagens, que a objectiva capta. 
Não são a estas filtragens que me refiro.
Sem distorções, com uma nitidez impressionante, as sequências que tenho captado são rudes, feias, bisonhas - contrariamente às que guardei de Chipre, por aqui tem acontecido uma panóplia de rostos emporcalhados, de gente com corpo tresandando a sarro, transportando lixo por dentro...
Não consigo exprimir, claramente, esta clara, abjecta transmutação orgânica.
Uma aura de promiscuidade agravada, uma forte e impressiva rejeição, atingindo as raias do nojo, da repelência, envolvem-me. Nem se tratará de "uma câmara de horrores" - isso implicaria difusões e distorções. São imagens vivas, "en passant", abjectas.
Gente feia, por dentro e por fora. Pensar que poderei ser tocada, mesmo de raspão, faz-me desejar que todas as fímbrias do meu corpo se encolham, se retraiam e me furtem ao toque, seja de que modo fôr - não posso evitar esta sensação.
Pensar em tocar-lhes, é como se me transfigurasse, tentando penetrar, por momentos, nesse mundo. Lembro-me sempre dos leprosos, em Moçambique, (em Nampula, para ser mais clara), em quem tocava, para desespero da minha mãe - mas esses tinham o cuidado, (por imposição do governo, ou por seguimento das ideias emanadas da Bíblia, ou porque assim era determinado pelas missões), de se fazerem acompanhar de sinetas, ou campainhas para salvaguardarem os que não padeciam da doença.
Por aqui, impoem-se, infiltram-se, emporcalham-nos, sem respeito nenhum pelo próximo. E é esta atitude, esta postura que denigre, mais ainda, o seu "modus vivendi" e adensa a rejeição que me tolda os sentidos, me provoca náusea, angústia, sofrimento e dor. De outro modo não se explicariam os sucessivos males-estar, doenças, que me têm prostrado desde que por aqui vou vegetando.
Não existem refúgios onde possa estar em paz, longe de tudo isto: perseguem-me, antecipam-se às minhas pressupostas intenções de buscar lugares de reflexão, de meditação, de encontro com a harmonia. Um assédio, a todos os títulos, irreverente, sórdido, primário e de impulsos animalescos. Aliás, nem mesmo os animais, sentindo-se sujos, se aproximam dos donos, e/ou evitam o contacto com as pessoas.
Com esta gente dá-se o contrário. Quando se apercebem, gastam água, (calhando das fontes e nascentes), e, julgando-se "lavados", vestem-se de novas roupagens, tentam a aproximação - o mal está lá, persiste, apesar de tudo - mas eles não têm consciência disso. São acríticos, (ou criticam o que não devem, sem se aperceberem que padecem dos mesmos males), irresponsáveis, incivilizados: uma geral inconsciencialização cresce, avoluma-se numa massificação tenebrosa, numa mole imensa de esterco humano.
Lamento, às vezes, a minha incapacidade de lidar com estas miudezas. Não sei ser de outro modo.

04/03/2012, (07h:08')          

Thursday, February 23, 2012

Sons na noite

A brisa suave da noite traz-me o repicar dos sinos das cercanias.
Fazem eco no meu corpo, fundem-se em mim - semicerro os olhos, e conto as badaladas...
Sempre esta imensíssima sensação de estaticidade, de plasmagonia, de ressonância sacrossanta. Como uma sonata só minha - esta magia acompanha-me desde sempre.
Não batem todos a compasso: cada um - e, se bem recordo, serão dezanove as oradas, igrejas e capelas da zona, - têm horas diferentes, repiques similares, mas distintos uns dos outros.
Uma toada que me enche de paz, como se anjos tocassem harpa, ou címbalo... 
"Terna é a noite"...
Tudo se conjuga com a plenitude de paz, que me apazigua sobressaltos, inquietações, e esta ausência de mim.
De noite, tudo parece mais intenso. 
A verdade é que, qualquer que seja a hora do dia em que me seja possível ouvi-los, páro, inadvertidamente, sem mesmo me dar conta, esteja eu a fazer seja o que fôr - como uma oração, reflectem-se no meu âmago as cadências, os timbres, e sinto uma incontida vontade de cantar(olar).
O medievismo das esferas concêntricas.
A harmonia perfeita entre o universo e eu.
Sinto-me envolvida numa redoma, como se a protecção divina me impedisse de ser ferida.
Volto a acreditar que tudo vale a pena.
Uma vontade impulsiva, imprime vida à minha vida.
Gott sei Dank!

24/02/2012, (04h:55')

Friday, February 17, 2012

Um Conto por mês (excertos)

Bacalhau à Zé do Pipo

Acontecem os triângulos, amorosos, ou nem por isso.
Quis o destino que almas gêmeas no desregramento, na desmesura e insensatez se cruzassem, escada abaixo, escada acima.
Uma fêmea despudorada intromete-se na relação de um casal de gasta vivência, embora com poucos anos de matrimónio. A vida opaca, sem palavras por reinventar, leva o macho a pressupor, (assediado por outros rabos-de-saia), de que é um "gatão" de alto coturno; quase analfabeto, ...

                                                ... // ...      ... // ...      ... // ...      ... // ...

... - hoje vinga(-se) o sexo, justifi(c)/(x)a-se tudo pelo sexo, seja lá como, onde e quando fôr ...

                                                ... // ...     ... // ...      ... // ...      ... // ...

Mas por amor, (dizem...), aguenta-se tudo - já alguém disse que "amar é permitir que nos magoem"; não vou por aí, mas, neste caso, decalca-se o chavão: a mulher - Fúria Delirante - no princípio, dá-lhe rédea solta ...; depois, muda de táctica, e tenta uma aproximação com a adversária, de modo subtil, umas vezes, outras, em que se nota algum desagrado, e por fim, uma amizade partilhada de cafés e festins e passeatas.

                                               ... // ...      ... // ...     ... // ...      ... // ...

...; há uma (quase) inquestionável normalidade que decorre com o passar dos dias, até que novos abalos e cansaços surtam efeitos contrários.
(O  Zé do Pipo é mesmo assim: desbocado, presumido e um imbecil chapado).

                                              ... // ...      ... // ...      ... // ...      ... // ...

... estas bacalhoadas sempre permitem mãos e colheres alheias no tacho; o que é preciso é levar o bote a bom porto, mesmo que já nada volte a ser como dantes.

07/11/2011 (15h:30')   

Thursday, February 9, 2012

Lagoa de Braças

Paraíso aberto ao sol,
Onde tu e eu nos abraçámos
Em busca da quimera:
Tudo resultou poesia
- Tu, eu, o mar e o sol...
O coaxar das rãs
Foi música de fundo,
O pipilar dos pássaros,
O marulhar das folhas,
Concerto inacabado
E eu senti-me longe, longe...
Talvez vagando no infinito
E tu correndo nos meus braços
E eu esfarelando areias,
Riscando letras desconexas,
Desenhando o rosto do amor,
Impreciso, turbulento e belo...
Quedámo-nos no silêncio
E fizémo-lo ária do sonho,
E tivémos esse sonho,
E fomos, enfim, humanos
Tão puros, tão nus: eu, Eva - tu, Adão
- Pecámos na maçã de fogo
Que nos abrasou ao entardecer.

25.08.1972, (23h:10')

Quando eu morrer...

Quando eu morrer
Quero que me vistam de estrelas,
Que me fechem nas mãos
As mais belas conchas do mar,
E me ponham nos cabelos uma dália vermelha
Para levar comigo
Um pouco de céu,
Um cheiro de mar,
E o eterno perfume da vida!

23/07/1982, (20h:40')

Wednesday, February 8, 2012

(Sem Título)

Anos que fiz
Anos que vivi
Anos que não quis
Mas em que fui feliz

E hoje, fazendo anos, esqueço, às vezes, que também tenho um Sol à minha espera, que a lua ainda chama por mim, que a música ainda ecoa em mim, que ainda há risos que não ri e sonhos que não sonhei.
Só dor, lágrimas e uma angústia feita medo, desencanto, denúncia, descrença... Sim: sobretudo isso - uma sólida, solitária e crua descrença, numa desconfiança de pesos que me arrastam, de gestos mal-entendidos, de palavras por decifrar, de olhares por rimar, de certezas por receber.
"E eu tão só..."
De mim já nada mais sei que isto: inconformismo de sonhos consecutivamente desfeitos, de dádivas murchas e sem resposta, de códigos por desvendar, e anos... tantos anos, de e por esperar.

06/02/1989, (23h:18')
- nascer em África, e mais propriamente em Moçambique, ter a família que tive, (hoje truncada), é um estigma sem
  possibilidade de "apagão" - é-se assim, porque sim... o resto são puras demagogias, sem enquadramento, nem razão de
  ser  neste mar de desilusões que é o "continente"

Thursday, February 2, 2012

Hoje...

O dia prenuncia boas perspectivas - vamos nessa!
Muito trabalho programado, como sempre, aliás, mas há apelos a que não poderei deixar de responder: a satisfação das minhas realizações passa por aí - um mundo, o meu eterno, sempre imperecível mundo, prontinho e feito para me seduzir até ao êxtase!
Há orgasmos sem falos, nem corpos debatendo-se. Há paixões eternas que aspergem os aromas, as cores, as volutas de mil fruições - sempre vieram até mim, com luminosidades, que aos outros passam despercebidas.
A minha hipersensibilidade tem destas coisas - uma mediunidade genética, como sinestesias intrínsecas, inebriante, doce, como o são todas as sensações de felicidade.
É uma aura de luz irradiante - os outros sentem de mim, mas não vêem, não sentem, e muito menos são capazes de interiorizar este quê, que é só meu.
Debati-me, em tempos, com um receio desconhecido da consciência que tinha desta força avassaladora - há muito que me deixei inundar por esta onda mágica; hoje quero-a em cada dia de todos da minha vida.
Vai ser assim, hoje e daqui em diante.
A isto chamo eu
                                                             AMOR.
Sem projecção, sem objecto, sem corporização, sem substância.
É essência pura!

03/02/2012, (07h:42')

A minha produção (amadora) - 3

FLORES:


Flores, sempre flores!
Uma magnólia, a Sprengeri "Diva", de cultura e origem norte-americana.
Quando é Primavera, na pressa de florirem, não esperam pelas folhas?!....
Esta foi de encomenda.

Tuesday, January 31, 2012

História Trágica de Uma Princesa

Num conto de fadas
Um belo conto, doce e mavioso...
Uma linda princesa,
Boa, jovem e com muita nobreza,
Andava encoberta na sua pobreza
De guardadora de patos
Com as suas roupas em farrapos
E quis um dia Deus premiá-la
Pois também mostrá-la quis
A um garboso sapateiro-aprendiz.
Cansada, preparava-se para se deitar
E eis que, ao pentear-se,
Sua maravilhosa voz se quis soltar
E assim encher o ar
Com um meigo e cristalino canto.
Nesse intérim, o arrogante aprendiz,
Passando, ouviu-a e quis
Saber a quem pertencia tão linda voz:
E, pé ante pé, da porta se aproximou
E maravilhado ficou,
Pois não esperava ver o que viu.
E lançando um assobio,
Foi assustar a pobre pequena,
Que, sem o saber, o deixou preso de encantos
Na grácil e real figura.
Medrosa e inquieta, a porta abriu.
E o que se viu
Foi algo de espantar!
O impudente sapateiro
De joelhos se postrou
E ainda mais assustou
A pobre donzela
Que, sem saber que era bela,
Longe dos homens vivia
E assim desconhecia
Esse "bicho malvado e maldizente".
Criava os seus patitos
E todos os bocaditos
Para eles e ela chegavam
E longe do mundo estavam
Pois só conheciam,
(E isso os satisfazia),
Toda a sua diáfana felicidade.
Passaram-se os dias;
A princesa ansiosa vivia
Pois também presa de encantos ficara
Desse procaz e insolente,
Que tão singelamente arrebatara
Dela toda a sua alegria.
E, no seu exíguo quarto,
Vivia em sonhos e utopias,
Anelos transcendentes e arcanos -
- Pois, sem querer, queria
Ver esse importuno senhor
Que, açambarcador,
Lhe tirava toda a euforia.
E a princesa assim morreu
De tristeza e torturada
Por esse amor que nasceu
Numa noite inesperada.

27/06/1968, (no meu 5º ano do Liceu Almirante Gago Coutinho, Nampula)
-nas transcrições dos meus poem(as)/(etos) de outrora, não efectuei correcções; estão quase tão virgens como
 o estão nos manuscritos, por aqui amontoados; poderiam ter sido efectuadas alterações, de molde a fabricar
 a rima entre alguns versos; contudo, está lá a possibilidade de o fazer - porque deixei assim, já não recordo...  

Sunday, January 29, 2012

A minha produção (amadora) - 2

ESPAÇOS, (cont.)
Estas produções já têm algum tempo - esquecia-me delas...
São liminares, como é fácil de ver.
Levam muito tempo a estar convenientemente preparadas para serem expostas; tenho uma inata falta de paciência para esperar pelo que quer que seja.
 Nas minhas deambulações, vou "onde me leva o coração", (parafraseando Susanna Tamaro) - gosto de me perder, achando, pelos campos desta Zona Oeste - uma iniciação à aguarela: Casal Teodora, Vimeiro


Um dos meus locais preferidos, repleto de paz, verde, água de nascente e paisagens magníficas; a Monchique da Zona Oeste e em miniatura - Fonte Lima, Vimeiro. Um recanto, em aguarela.
(Ainda ando a ensaiar... Tenho muito a aprender!)

FLORES, (cont.)
Uma perdição para os meus sentidos.
Em miúda, adorava comer as pétalas de algumas flores - sabor bom, agradável, fresco, e perfumado. Deveria ter uma costela de cabra montesa?!...
Zora adora cheirá-las, e zanga-se com os funcionários da Junta de Freguesia, quando os vê levarem-nas secas. Um doce a minha "chiquita maravilhas"?!...
Algumas das muitas flores de Fonte Lima: pequeninas, em "gouache".

Friday, January 27, 2012

Ontem choveu

Ontem choveu, tanto, tanto,
Que se encheram de mágoa
Meus olhos com o pranto
Que a vida lavou com água

Memórias de um tempo
De dor sentida por dentro
Cresparam-se os meus dedos
De tanto desvendar meus medos

Como toda a água de ontem
Corria assim o pensamento
Com tudo de mau que contém
Ficou só o sentimento

De já não querer desejar
Mais nada qu'aquilo que vem
De manso fazer vibrar
Tudo de bom qu'a vida tem

Assim como a chuva d'ontem
Muitas chuvas mais virão
P'ra me deixar só com o bem
Que fará ao meu coração

Podem bater nas vidraças
As gotas que o vento traz
Já não me importam desgraças
Já estou de novo em paz

27/01/2012, (22h:02')

Short Story - A Tale About the Mistery of Blood Ties

Long time ago an old man, coming into an ancient tavern, in the outskirts of London, noticed, completely amazed, that the taverner was staring to a window.
It was very dark, and the depth of the night fell heavily upon mother nature. Something strange filled the air with a vague quietness; no moving noise, no people walking or chattering around...
But the man was still as a statue, deaf and dumb, like a crazy image of discontent and pain.
The old man took a sit, waiting.
Slowly, the taverner turned round, walking to the balcony. He opened a drawer, took a knife and a plate, where he put some smoked salmons and some loaves.
He sat down, picked up a glass from the shelf behind him, and a bottle of wine.
- Don´t forget I'm waiting, mister?!...
The taverner gave no answer.
The old man waited, looking at him, and, after a while, he got up and walking to the man, he said:
- Hey, mister, will you give me one second of your time?
The taverner, stirring as if he was awaking  from a deep sleep, answered:
- Sorry, sir, I couldn´t hear you. It is a bad night for all of us, here in the village. Many years ago our sons had started an expedition into the sea. It was a calm evening. However all the conditions, the weather changed and all of them were shipwrecked - no one returned, and we all mourned our beloved children. In every house, this night, we can feel a deep discouragement, and an outstanding grief from our deads. Nothing gave us any answer, no one appeared to tell us what, how or where the events took place. All we know it's that in this very night, some years ago, something unknown broke our lifetime, as if earth had stopped its turning.

23/05/1988, (durante uma aula de teste de um nono ano, ESRamada)

Thursday, January 26, 2012

Poema a duas "manas"

A labrega sonha e ri
Na sua ignorante imaginação
Que é dádiva do céu
A insígnia de podridão
E a vida que o chulo lhe deu

A famigerada promíscua
Arroga-se de doutas letras
A geba histérica amua
E dá tudo às pedras
Se lhe dizem: "não vou por ti!"

26/01/2012, (23h:53')

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Quem foi que disse que o amor é sofrimento?
Estava de pernas para o ar, decerto! Ou o filme estava ao contrário?!...

Quem foi que disse que o amor é azul?
Não sabia, por certo, que a luz reflecte "nuances" diversas, todas elas tão cheias de música...

Quem foi que disse que o amor é sonho?
Será que é sonho a flor que adeja ao ar dos campos?

Quem foi que disse que o amor é intriga?
Não será ele feito de espaços abertos, de danças de roda, de mãos que se dão?

Quem foi que disse que o amor é posse?
Se todo ele é dádiva, se todo ele é dado aos outros?

Quem foi que disse que o amor é egoísmo?
Um desencantado ciumento que se fez passar por um náufrago, ou por um Cupido sem aljava?!...

Quem foi que disse que o amor é amargo?
E então a ternura, a doçura de um olhar?

Quem foi que disse que é melhor estar só?
Algum antipático sovina que não aprendeu a aceitar um tímido sol de Inverno!

Quem foi que disse que tudo isto é poesia?
Que será, afinal, Deus?!...

Quem foi que disse que o amor é imoral?
Para que criou Deus o homem e a mulher?

Quem foi que disse que amar assim é pecado?
Algum sacrílego que teima em adormecer nas asas do vento que passa.

Quem foi que disse que o amor é relação antitética?
Alguém que anda perdido nas sendas de algum Cupido manhoso?!...

Quem foi que disse que há quem não saiba amar?
Já lhe bateram à porta de mansinho?


29/04/1990
(Brincadeira a propósito da moda "O Amor é...", "A amizade é...", etc)

Wednesday, January 25, 2012

O TURISMO MATA O TURISMO

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Hoje em dia qualquer país  é incomensuralmente um explorador, se atentarmos à procura desenfreada de maquias fabulosas descurando factos primordiais à atracção turística, onde se deveria apoiar o encanto beatificamente natural de certas regiões relegadas hoje a uma beleza pré-fabricada simulada nas super-estruturas que o progresso e a técnica incrementaram.
Baseando-nos em evidências, apontaremos o caso de Tróia, maravilha agreste, selvaticamente desarmante, que foi transmutada em beleza comodamente arquitectónica onde pretendem impôr o mundo cosmopolita, a beleza apagada das luzes do desenvolvimento.
Outro caso idêntico será o das nossas praias do sul, onde toda a sua aridez rochosa primitiva, (nalgumas...), foi substituída por imóveis impantes de poluição, desafiando a pureza gritante, o ar reconfortante de uma vida sã, aberta e livre a toda a alma humana - o progresso, em busca de campos mais amplos, descura e vota à estreiteza toda a Natureza que nos faz sentir mais homens.
Para algumas regiões, atracção turística é o símbolo de simulação; isto é: falsifica-se o artesanato que é exposto e vendido ao público como autenticidade histórica.
Triste é reconhecer-se que o turismo, muito embora devesse incentivar o fomento, o zelo da manutenção de toda uma epopeia, das características que vinculam um povo, provoca, pelo contrário, tendências acentuadamente propínquas à imitação, à assimilação estrangeira, facultando um contra-turismo.

!972, Lar da Praça José Fontana, ( a pedido de uma residente para concurso e progressão na carreira numa empresa seguradora - considerado o melhor trabalho apresentado)
- o título, em epígrafe, era comum para todos os concorrentes
- havia condicionamento de nº de palavras e/ou linhas a utilizar